O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores – PT) realizou em 8 de janeiro uma cerimônia no Palácio do Planalto para marcar os três anos da tentativa de golpe liderada pelo ex-presidente fascista Jair Bolsonaro com o apoio das Forças Armadas brasileiras.
Este 8 de janeiro foi o primeiro desde que Bolsonaro e seus co-conspiradores militares foram condenados e presos pela tentativa de reverter o resultado eleitoral de 2022 e estabelecer uma ditadura no Brasil.
Os três anos da insurreição fascista também aconteceram depois da posse do presidente americano Donald Trump, um aliado próximo de Bolsonaro, cujo golpe de 6 de Janeiro de 2021 serviu de modelo para o ex-presidente brasileiro.
Em julho do ano passado, o governo Trump já tinha imposto tarifas abusivas de 50% sobre os produtos exportados do Brasil para os EUA com o objetivo de reverter a iminente condenação do ex-presidente brasileiro e seus aliados pela tentativa de golpe, o que viria a acontecer em 11 de setembro do ano passado.
Desde então, a ofensiva do governo Trump sobre a região historicamente considerada o “quintal” dos EUA sofreu uma escalada qualitativa.
Em dezembro, ele lançou sua nova Estratégia de Defesa Nacional que introduziu um “corolário Trump” à Doutrina Monroe. Após declarar seus objetivos de combater a influência da China e afirmar seu domínio sobre o Hemisfério Ocidental, o imperialismo americano invadiu a Venezuela e sequestrou o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em 3 de janeiro.
Realizada nesse contexto explosivo, a cerimônia pelo governo Lula, intitulada “Defesa da Democracia”, teve como objetivo semear ilusões sobre a suposta força da “democracia brasileira”. Segundo Lula, “O 8 de janeiro está marcado na História como o dia da vitória da democracia.”
O presidente brasileiro também aproveitou para reforçar a agenda nacionalista de seu governo, dizendo que o 8 de janeiro também representou uma vitória sobre “Os traidores da pátria, que conspiraram contra o Brasil para causar o caos na economia e o desemprego de milhões de brasileiros.”
Lula louvou as alegadas virtudes do Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento de Bolsonaro e seus aliados, dizendo que “Talvez a prova mais contundente do vigor da democracia brasileira seja o julgamento dos golpistas, pelo STF.” Numa referência ao juiz relator do processo, Alexandre de Moraes, atacado por Trump com a imposição da Lei Magnitsky, ele disse que o STF “Não se rendeu às pressões. Não se amedrontou diante das ameaças. Não se deixou levar por revanchismos.”
Em um movimento calculado, Lula não mencionou em seu discurso as enormes implicações da invasão dos Estados Unidos à Venezuela para a “vigorosa democracia” do Brasil. A agressão do imperialismo dos EUA contra o vizinho do norte do Brasil abre um precedente perigoso para toda a América Latina. Um dos objetivos centrais do ataque de Trump foi enviar uma mensagem clara de que qualquer governo que se oponha aos EUA enfrentará o mesmo destino de Maduro.
Lula também não mencionou as intervenções sistemáticas do governo Trump na política do Brasil e de toda a região, promovendo forças fascistas que são herdeiras das ditaduras militares apoiadas pelos EUA na década de 1970.
Na verdade, Lula e seu governo têm feito de tudo para evitar mais tensões nas relações com o governo Trump. O presidente do PT continua buscando acordos politicamente corruptos com o governo dos EUA para reverter as tarifas impostas ao Brasil. Além disso, desde outubro, em meio à escalada do governo Trump contra a Venezuela, Lula conversou três vezes com o aspirante a ditador americano, declarando em meados de dezembro que “Trump virou meu amigo com um pouco de conversa”.
No entanto, enquanto agem conscientemente para anestesiar a classe trabalhadora brasileira, Lula e seus assessores estão acompanhando com nervosismo o sequestro de Maduro e os desdobramentos na Venezuela, cientes das implicações para o Brasil, que são exacerbadas pelo fato de este ser um ano eleitoral em que Lula concorrerá à reeleição.
Reportagem do site Metrópoles de 6 de janeiro escreveu que “o Planalto vê com preocupação a possibilidade de uma interferência da Casa Branca nas eleições presidenciais de 2026”, com a diplomacia brasileira estabelecendo “paralelos claros entre o que ocorreu recentemente em países como Honduras e Argentina e o que pode acontecer no Brasil”.
O destino de Nicolás Maduro prenuncia uma escalada da intervenção direta do imperialismo dos EUA na política brasileira, o que é defendido agressivamente pela oposição de extrema direita ligada a Bolsonaro. Essas forças fascistas já começaram a explorar a ofensiva do governo Trump contra a Venezuela para impulsionar sua campanha pela libertação de Bolsonaro e dos outros condenados pela tentativa de golpe de 8 de janeiro.
Como parte da comemoração oficial dos três anos do 8 de Janeiro, Lula vetou integralmente o assim chamado “PL da Dosimetria”. Aprovado pelas duas casas do Congresso brasileiro em dezembro, o projeto visava reduzir as penas para crimes como “abolição violenta do Estado democrático de Direito” e “golpe de Estado”, beneficiando diretamente Bolsonaro e outros golpistas presos.
Os relatores do “PL da Dosimetria” no Congresso criticaram duramente o veto de Lula. O deputado Paulinho da Força – que também é líder de longa data da segunda maior federação sindical do Brasil, a Força Sindical – declarou que o “Congresso entregou a bandeira branca da paz do Brasil nas mãos do Lula. Sabe o que ele fez? Rasgou e tocou fogo nela. ... Foi ao terreno já pacificado e jogou gasolina. Preferiu o confronto ao diálogo. ... Ignorou o Congresso.”
O deputado também relacionou a aprovação do “PL da Dosimetria” com a possibilidade de ele ajudar a eliminar as tarifas impostas ao Brasil, alegando que o projeto “foi reconhecido e elogiado internacionalmente, inclusive pelos Estados Unidos, como um sinal claro de estabilidade, maturidade democrática e pacificação do país.” Paulinho já declarou que o Congresso irá derrubar o veto de Lula.
O senador Esperidião Amin reagiu ao veto de Lula com uma medida ainda mais incisiva, protocolando, no mesmo dia 8 de janeiro, um novo projeto de lei propondo a “anistia total, ampla e irrestrita” para Bolsonaro e outros condenados pela tentativa de golpe de 8 de janeiro.
O “PL da Dosimetria” foi aprovado por ampla margem na Câmara e no Senado brasileiro, indicando que a base ativa no Congresso brasileiro e o establishment burguês como um todo estão trabalhando para reabilitar Bolsonaro e apoiar o candidato que ele apoia nas eleições presidenciais de outubro. O senador Flávio Bolsonaro, que está sendo lançado como candidato à presidência em nome de seu pai, já aparece em segundo lugar nas pesquisas.
Sem dúvida, o ataque à Venezuela e a ofensiva de Trump contra a América Latina alimentarão as ambições eleitorais da oposição fascista e seus planos ativos para continuar sua conspiração ditatorial de 2022-23.
A resposta de Lula a esses desenvolvimentos é totalmente falida. A Folha de S. Paulo reportou em 8 de janeiro que seu governo “deve defender o veto do presidente à redução de penas dos condenados no processo da trama golpista, mas sem tensionar a disputa a ponto de comprometer a relação do Executivo com o Congresso.”
A Folha explicou que “O presidente busca atrair aliados de campos políticos diversos para sua candidatura de reeleição em outubro”. Entre eles estão forças políticas de direita que votaram a favor do “PL da Dosimetria”, que Lula pretende incorporar em uma retomada da “frente ampla” das eleições de 2022 contra um candidato apoiado por Bolsonaro. Isso também significa reforçar sua retórica nacionalista e sua defesa da “soberania nacional”, promovida para angariar apoio de setores da burguesia brasileira afetados pelas tarifas de Trump.
O governo Lula enfrentará uma crise crescente até as eleições gerais de outubro de 2026, que coincidirá com a escalada da ofensiva do governo Trump sobre a região e todo o mundo. Como mostrado ao longo da história da América Latina no século XX, o nacionalismo burguês é incapaz de oferecer uma resposta progressista à crise do imperialismo americano e sua guinada cada vez mais rápida em direção à ditadura em casa e à guerra no exterior.
Pelo contrário, os apelos falidos de Lula ao “multilateralismo” e sua defesa da “soberania nacional” apenas desarmam a classe trabalhadora brasileira para os perigos que está enfrentando. A ameaça de uma intervenção imperialista sobre o Brasil e toda a América latina, incluindo a imposição de uma nova ditadura militar, só pode ser detida por um movimento internacional da classe trabalhadora contra o capitalismo e seus pilares, incluindo os alegados partidos da esquerda nominal como o PT de Lula.
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