Na última sexta-feira, uma equipe do World Socialist Web Site (WSWS) visitou a unidade da JBS Jaguaré, em São Paulo, para conversar com os trabalhadores sobre a greve crucial de seus companheiros de empresa na planta de Greeley, Colorado – a maior greve no setor de frigoríficos nos EUA desde a década de 1950, que entra em sua terceira semana.
A equipe do WSWS distribuiu uma versão em português da declaração “Organizar a classe trabalhadora em apoio à greve na JBS nos EUA!”, que defende a unificação internacional dos trabalhadores da JBS como o único caminho efetivo para enfrentar a empresa transnacional e conquistar melhorias reais nas condições de trabalho e nos salários em todos os países em que ela opera.
A distribuição ocorreu em meio à crise capitalista global em rápida escalada e à guerra criminosa dos EUA e Israel contra o Irã. A guerra contra o Irã já desencadeou uma alta abrupta nos preços do petróleo e dos combustíveis em todo o mundo, golpeando diretamente os trabalhadores brasileiros. A ofensiva tarifária de Donald Trump aprofundou as tensões comerciais e intensificou os ataques às condições de vida da classe trabalhadora em ambos os países. As mesmas pressões que levaram os trabalhadores de Greeley a deflagrar a greve estão presentes, com igual força, nas unidades brasileiras da JBS.
Apesar de a greve em Greeley já ter completado duas semanas, a maioria dos trabalhadores com quem o WSWS conversou na planta do Jaguaré não sabia da sua existência. Esse apagão de informações não é acidental.
Trabalhadores falam sobre salários, condições e a JBS
Um operário da fábrica, ao receber o panfleto do WSWS, foi direto: “Alguma coisa está acontecendo, porque o dinheiro não dá. Se não dá para termos uma qualidade de vida um pouco melhor, porque parece que está defasando mais, tem que ser ajustado o quê? É o salário, para competir com as despesas da gente, né?”.
O complexo Jaguaré, especializado em produção de margarina, pertencia anteriormente à multinacional americana Bunge e foi adquirido pela JBS em 2019. O piso salarial na planta é de R$2.543 mensais para uma jornada semanal de 44 horas – três vezes menor que o Salário Mínimo Necessário calculado pelo DIEESE, definido como o mínimo para que um trabalhador sustente uma família de quatro pessoas no Brasil, hoje em aproximadamente R$7.629 por mês.
Um grupo de três trabalhadoras da limpeza, ao ouvirem da equipe do WSWS que os trabalhadores nos Estados Unidos “estão em greve por salários muito ruins, condições que desgastam os trabalhadores de forma muito rápida”, respondeu sem hesitação: “A gente sabe bem como é”.
O WSWS também conversou com caminhoneiros autônomos que atuam na distribuição dos produtos da fábrica. Mais de um deles, ao ser abordado, disse espontaneamente: “Essa empresa é um lixo.”
Um deles descreveu com detalhes a desorganização e a falta de humanidade na operação da empresa:
Rapaz, todo lugar tem seu defeito. Mas aqui é impressionante. É muita falta de humanidade. Hoje mesmo um [caminhoneiro] derrubou um muro lá dentro, manobrando. A balança está com problema há mais de dias, então temos que ir lá dentro para assinar nota fiscal. Aí, o cara foi manobrar para voltar e não tem espaço. Bateu lá no muro. O cara vai ter que pagar, e ele vai ser bloqueado [isto é, impedido de trabalhar para a empresa].
Outro caminhoneiro que já teve vínculo formal com a JBS e hoje presta serviços à empresa como autônomo, apontou diretamente para a política de arrocho de fretes praticada pela empresa: “Mostraram a tabela de frete [da empresa]. Mas está errada. Como ela é assim com o governo, eles não falam. Mas, jogando a denúncia, eles não acompanham a tabela de frete. A tabela de frete de caminhão, por exemplo, é R$3,80 por quilômetro. Aqui eles pagam R$2,50. R$1,30 a menos. Poxa, se você foi daqui pro Rio de Janeiro e voltou, são R$1.300 a menos do seu frete. Eles pagam quatro mil, era para você estar ganhando R$5.300.
Ele também falou sobre o impacto da guerra contra o Irã no preço dos combustíveis: “Vai impactar, vai fazer um pouco de falta”. Levantamentos recentes apontam que o diesel subiu quase 20% nas distribuidoras e nos postos de combustível no Brasil. “Tem postos de gasolina por aí que o diesel já está R$8,80 o litro, é um abuso”, ele disse. “Como eu rodo só na cidade ainda dá para levar, mas colocar o caminhão na estrada não compensa”.
A hostilidade da burocracia sindical à unidade internacional dos trabalhadores da JBS
Representantes do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Laticínios e Alimentação de São Paulo (STILASP) haviam visitado a planta do Jaguaré poucos dias antes, com o propósito declarado de “dialogar diretamente com os trabalhadores e trabalhadoras, ouvindo suas demandas e reforçando a importância da organização coletiva” e “ampliar a resistência contra os ataques patronais.” A última coisa que poderia passar pela cabeça dos burocratas seria chamar atenção para a greve histórica na unidade da empresa em Greeley – que não é mencionada em nenhum material do sindicato.
Esse silêncio não é uma omissão casual. Os trabalhadores da JBS no Brasil, nos Estados Unidos e em outros países estão todos subordinados a um único regime de exploração em benefício da mesma oligarquia financeira internacional, e unidos pelos mesmos interesses de classe objetivos. As burocracias sindicais – no Brasil como nos Estados Unidos – são ativamente contrárias à afirmação política dessa unidade. Embora a unificação através das fronteiras nacionais seja a maior arma dos trabalhadores da JBS no enfrentamento à empresa, as burocracias sindicais têm seus interesses e operações firmemente ancorados no Estado nacional burguês reacionário.
A direção do STILASP, empossada em agosto de 2024 em um processo eleitoral de chapa única, levantou como eixo político central de sua campanha a “defesa da reindustrialização do Brasil” – um programa explicitamente nacionalista, alinhado ao grande capital. Sua posse foi realizada na própria sede da União Geral dos Trabalhadores (UGT) e contou com a presença de Ricardo Patah, presidente da central sindical, e de Antônio Magri, ex-ministro do Trabalho do governo de direita de Fernando Collor.
A UGT é historicamente associada ao sindicalismo pelego e ao trabalhismo nacionalista semi-fascista de Getúlio Vargas. Ao lado das demais centrais sindicais brasileiras, a UGT vem respondendo à crise capitalista mundial e à escalada da agressão imperialista com uma defesa cada vez mais aberta dos interesses do grande capital brasileiro.
Em resposta às tarifas de Trump contra o Brasil – lançadas em 2025 como um ato aberto de intervenção imperialista em defesa do ex-presidente fascista Jair Bolsonaro – as centrais sindicais reuniram-se com representantes do governo do PT e do empresariado nacional e publicaram um documento que, como escreveu o Grupo Socialista pela Igualdade (GSI) na época, expressou apoio aos “posicionamentos do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal”, saudou as “manifestações de repúdio” vindas de “setores da imprensa e do empresariado” e propôs “criar espaços permanentes de concertação entre governo, trabalhadores e empresários”.
O programa nacionalista reacionário defendido pelos sindicatos representa um chamado à continuidade das políticas capitalistas implementadas durante os primeiros governos do PT do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no início do século XXI — as mesmas políticas que construíram a JBS tal como a conhecemos hoje.
No âmbito do que ficou conhecido como a política das “campeãs nacionais”, o governo petista elegeu um punhado de grupos capitalistas privados que receberam investimentos colossais e apoio político do Estado. No contexto do chamado “boom das commodities” impulsionado pelo crescimento da economia chinesa, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) injetou ao menos R$8,1 bilhões na empresa dos irmãos Batista entre 2005 e 2014, financiando uma sequência de aquisições em quatro continentes – incluindo a Swift e a Pilgrim’s Pride nos Estados Unidos, a Tasman na Austrália, a Inalca na Itália e a Swift Armour na Argentina. O faturamento da JBS saltou de R$4 bilhões em 2006 para R$170 bilhões em 2016: um crescimento de 3.400% em dez anos, bancado com dinheiro público e revertido em lucro privado.
Esse processo não gerou apenas uma mega empresa – deu luz a uma oligarquia financeira no Brasil com traços distintivos. Quando um escândalo monumental de corrupção envolvendo a JBS e o establishment político brasileiro veio à tona em 2017, o dono da empresa, Joesley Batista, revelou em sua delação premiada que havia pago aproximadamente R$500 milhões em propinas a políticos de praticamente todos os partidos importantes do país, incluindo presidentes da República, ministros e dirigentes do próprio BNDES. Embora Joesley e seu irmão tenham passado cerca de seis meses presos, o poder desses oligarcas capitalistas foi preservado intacto.
A influência esmagadora dos Batista – emblemática do domínio da elite financeira parasita sobre a vida política do país e além — emergiu com plena força diante dos recentes e explosivos desdobramentos ligados à ofensiva imperialista americana sobre a América Latina.
Quando as tarifas dos EUA sobre as exportações brasileiras de carne bovina foram elevadas a 76%, Joesley Batista articulou, de forma totalmente independente dos canais diplomáticos oficiais brasileiros, uma reunião de 30 minutos com Trump no Salão Oval da Casa Branca – sendo, segundo a imprensa, o único empresário brasileiro a ter obtido acesso direto ao presidente fascista americano – para reclamar que as tarifas estavam prejudicando as operações globais da JBS.
Esse papel de articulador político extra-oficial assumiu uma forma ainda mais sinistra meses depois, em novembro de 2025, poucas semanas antes da invasão militar americana à Venezuela, quando Batista viajou secretamente a Caracas para se reunir com Nicolás Maduro – com o conhecimento da Casa Branca, segundo a Bloomberg – para persuadi-lo a deixar o poder. Nenhum episódio ilustra com maior clareza o que significa, em termos concretos, o poder de uma oligarquia capitalista transnacional: a capacidade de operar simultaneamente nos mercados de carne, nas bolsas de Nova York e nos bastidores de uma operação militar de mudança de regime.
É nesse contexto que o caráter da relação entre a JBS e as centrais sindicais deve ser compreendido. A delação de Batista não revelou apenas seus vínculos com o establishment político, mas com os próprios sindicatos oficiais. Ele cultivou operações altamente lucrativas com os fundos de pensão dos trabalhadores – a Funcef, dos funcionários da Caixa Econômica Federal, e o Petros, dos petroleiros da Petrobras – tendo sua entrada facilitada por dirigentes sindicais da CUT, a central sindical controlada pelo PT, que integravam os conselhos paritários desses fundos.
Entre os convocados pela Polícia Federal para prestar esclarecimentos nas investigações contra Batista estava ninguém menos que Ricardo Patah, presidente da UGT – a mesma central à qual o STILASP se filiou em cerimônia festiva em agosto de 2024. Não se trata de coincidência, mas de continuidade: a mesma burocracia que ajudou a construir a oligarquia JBS com dinheiro dos trabalhadores hoje se apresenta como sua representante nas portas da fábrica do Jaguaré.
A trajetória da JBS – de frigorífico regional a corporação transnacional, construída com dinheiro público, mantida por corrupção sistêmica e operada como instrumento da política imperialista – é a condenação mais eloquente possível do programa nacionalista promovido pelos sindicatos brasileiros, pelo PT e pela pseudoesquerda. A história da JBS demonstra, de forma incontestável, que não existe “capital nacional” a ser defendido contra o imperialismo, e que o nacionalismo não é uma arma da classe trabalhadora.
Os interesses dos trabalhadores da JBS, e de toda a classe trabalhadora, só podem ser efetivamente defendidos por meio do estabelecimento de sua unidade internacional ativa, através da construção da Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB). Encorajamos todos os trabalhadores interessados em discutir essa perspectiva a entrar em contato com o WSWS.
