Português
Perspectivas

Wall Street Journal anuncia era das “demissões em massa”

“Chegou a era das demissões em massa?” Com essa pergunta, colocada no título de um artigo publicado na quarta-feira, o Wall Street Journal declarou que o desemprego em massa, em uma escala sem precedentes recentes, é uma política deliberada da classe dominante capitalista.

Enorme fila de desempregados do lado de fora de um escritório do Centrelink, o serviço do governo australiano de proteção social, em Sydney.

“Em vez de demitir pessoas em etapas mais graduais — e menos disruptivas —, os empregadores estão aproveitando as potenciais vantagens financeiras de demitir grande parte de sua força de trabalho de uma só vez”, observou o jornal. “Isso representa uma mudança em relação a não muito tempo atrás, quando demissões em massa eram vistas como um sinal de problemas ou má gestão e indicavam que uma empresa precisava tomar medidas drásticas para corrigir seu desempenho. Agora, é mais provável que uma empresa assim obtenha um grande aumento no valor de suas ações e elogios dos investidores por agir com ousadia.”

O Journal cita saltos imediatos no valor das ações após recentes demissões em massa nas empresas de tecnologia Block e Snap. Depois que a Block anunciou planos de demitir 40% de sua força de trabalho, executivos de outras empresas “começaram a aparecer do nada”, segundo um executivo. O objetivo, de acordo com o artigo, era pedir “o manual de estratégias sobre como poderiam replicar cortes tão drásticos em suas próprias empresas”.

A Block apresenta as demissões impulsionadas principalmente pela IA como algo “inevitável” — algo que é melhor fazer o quanto antes. Mas isso está sendo usado como um meio para atingir um fim. Segundo um analista entrevistado pelo Journal, isso “também serviu de pretexto, e mais importante ainda, para realizar o redimensionamento que provavelmente já deveria ter sido feito há muito tempo”.

O fato de um dos principais motivadores das demissões em massa ser o aumento imediato do valor das ações é um sinal da extrema falta de visão e da imprudência que dominam a estratégia corporativa. Mas a resposta de Wall Street reflete uma decisão mais fundamental tomada pelo capital financeiro: vastos setores de capital menos produtivo devem ser eliminados, juntamente com os trabalhadores por eles empregados.

Isso se reflete na crescente onda de demissões em massa. No ano passado, ocorreram 1,2 milhão de demissões, segundo a Challenger, Gray & Christmas, o maior número desde o primeiro ano da pandemia de COVID. Só neste mês, foram anunciadas demissões na Snap (1.000 postos de trabalho), na Disney (1.000), no Morgan Stanley (2.500) e no Citigroup (1.000). Trinta mil demissões estão em andamento na Amazon e na Oracle.

Isso também não se limita aos empregos administrastrativos. A UPS está eliminando mais postos de trabalho do que qualquer outro empregador no país. Milhares de demissões estão ocorrendo no setor automotivo, incluindo o fechamento pela GM daquela que havia sido apresentada como sua nova fábrica emblemática de veículos elétricos. Nos Correios dos Estados Unidos, em consequência de uma crise financeira provocada, a administração suspendeu os pagamentos ao plano de aposentadoria e está preparando cortes generalizados. Quase todos os principais distritos escolares e autoridades de transporte público nos Estados Unidos estão considerando demissões para cobrir déficits significativos.

Isso não é um fenômeno exclusivamente americano. A Lufthansa está fechando sua subsidiária CityLine. Devido à escalada do conflito com o Irã, a Europa tem “talvez seis semanas de combustível de aviação restantes”, segundo a Agência Internacional de Energia. A BBC está eliminando 10% de sua força de trabalho, o que representa cerca de 2.000 empregos. Os Correios do Canadá planejam cortar 30.000 empregos, mais da metade de sua força de trabalho, ao mesmo tempo em que encerrarão as entregas em domicílio.

Há uma lógica objetiva por trás disso. Os Estados Unidos atingiram US$ 39 trilhões em dívida federal, cujos juros equivalem ao valor total do orçamento militar. A dívida das empresas não financeiras americanas chegou a US$ 14,1 trilhões, de acordo com um relatório de janeiro do Federal Reserve. Espera-se que as principais “hiperescaladoras” — Amazon.com, Alphabet, Meta Platforms, Microsoft Corporation e Oracle Corporation — emitam até US$ 175 bilhões em novas dívidas em 2026 para financiar a expansão da IA.

Enquanto isso, os gastos militares dos EUA estão disparando, com US$ 200 bilhões requisitados para a guerra contra o Irã e mais US$ 500 bilhões no orçamento do próximo ano, elevando o total para US$ 1,5 trilhão.

O custo de suas tentativas de sustentar esses níveis de endividamento e evitar o colapso econômico, ao mesmo tempo em que financiam o enorme custo para a sociedade da própria oligarquia corporativa, só pode, no capitalismo, ser extraído da classe trabalhadora.

Isso significa, por um lado, desemprego em massa, salários mais baixos, jornadas de trabalho mais longas e um aumento significativo na extração de mais-valia por meio de novas tecnologias. Por outro lado, significa a apropriação de recursos naturais, mercados e cadeias de abastecimento dos rivais nacionais. Isso fica mais evidente na guerra de Trump contra o Irã, que é uma luta pelo controle das rotas petrolíferas, rotas marítimas, minerais estratégicos e cadeias de abastecimento industrial.

Essas políticas não podem ser impostas democraticamente. É isso que explica a ascensão de Trump e o apoio substancial que ele recebe de oligarcas como Jeff Bezos e Elon Musk. Trump, cuja visão política está imersa no fascismo e que ameaça abertamente com genocídio os alvos de conquistas estrangeiras, é a expressão política necessária do capitalismo num momento em que este só pode continuar por meio de uma guerra contra a sociedade.

Quanto aos democratas, sua única preocupação é que Trump leve adiante essa política de uma forma um pouco mais coerente e coordenada.

Enquanto isso, a burocracia sindical está intensificando suas traições. Só na semana passada, greves marcadas de 80 mil funcionários da rede escolar de Los Angeles e 34 mil porteiros da cidade de Nova York foram canceladas por meio de acordos vendidos. O Sindicato dos Roteiristas está tentando impor enormes aumentos nos custos de saúde e salários abaixo da inflação, enquanto Hollywood elimina milhares de empregos.

Assim como as políticas de Trump não são simplesmente fruto de ignorância pessoal ou corrupção, as traições da burocracia são a expressão necessária de sua aceitação das relações de propriedade capitalistas e do nacionalismo americano. Ela reprime a luta de classes porque qualquer defesa genuína dos empregos levanta rapidamente a questão do poder.

A elite corporativa sonha em gerar lucro a partir do próprio lucro, eliminando totalmente o trabalho humano da equação, tanto por meio de bolhas financeiras quanto da inteligência artificial. Mas ela não consegue se livrar da dependência da classe trabalhadora, que é a fonte de todo o valor.

Além disso, essas condições estão provocando uma profunda mudança política. Milhões de pessoas estão chegando à conclusão de que não se trata simplesmente de uma questão de “ganância” ou de maus executivos. O responsável é o próprio sistema capitalista.

A promessa da “oportunidade ilimitada” americana soa como uma frase irônica para os jovens que não têm a menor chance de progredir na vida. Pela primeira vez na história, a diferença na taxa de desemprego entre quem possui diploma de ensino médio profissionalizante e quem possui diploma de graduação foi totalmente eliminada.

Isso está radicalizando uma geração e ampliando a base potencial para a política socialista.

O paradoxo da crise é que ela surge de um nível extraordinariamente elevado de desenvolvimento econômico. O nível de riqueza da sociedade é tão grande, e a integração econômica e cultural do planeta tão avançada — em consequência das cadeias de abastecimento globais de alta tecnologia —, que já não são compatíveis com os limites estreitos da propriedade privada e do sistema de Estados-nação.

Os trabalhadores devem assumir o controle da mesma tecnologia que hoje é usada como arma contra eles e transformá-la na base de uma nova forma de sociedade, fundamentada não na exploração, mas na livre associação dos produtores.

As enormes melhorias na produtividade possibilitadas pela IA e pela automação devem ser usadas para financiar uma redução drástica da jornada de trabalho sem redução salarial, juntamente com educação de alta qualidade, saúde e outros serviços públicos, em vez de financiar a desigualdade descontrolada.

A própria IA, colocada ao serviço de um governo operário, poderia tornar-se uma ferramenta fundamental de planejamento e organização, abrindo novas possibilidades para a administração direta e democrática da sociedade pelas próprias massas.

A classe dominante está tornando as lutas revolucionárias inevitáveis. A tarefa central é dotá-las de um programa socialista: a expropriação das forças produtivas da oligarquia financeira e sua reorganização em função das necessidades humanas, não do lucro privado.

Loading