Publicado originalmente em inglês em 31 de agosto de 2026
Em 24 de junho, o terremoto mais forte que atingiu a Venezuela em 125 anos matou mais de 6.500 pessoas e deixou dezenas de milhares desaparecidas. Dois meses depois, com grande parte da população ainda vivendo em barracas em praças e calçadas, Donald Trump anunciou que o governo dos Estados Unidos está assumindo o controle do petróleo da Venezuela.
Na noite de sexta-feira, Trump se gabou nas redes sociais de que Washington havia garantido “o controle majoritário dos EUA sobre mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo na Venezuela”. Isso equivale a um quinto das reservas da Venezuela, as maiores do mundo. No entanto, Washington está, na prática, assumindo o controle de todo o setor.
O Wall Street Journal revelou, desde então, que uma empresa privada liderada pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt receberá direitos por um século para explorar 17 campos de petróleo. O Escritório de Capital Estratégico do Pentágono assumirá uma participação de 35% por meio de ações preferenciais — participação acionária praticamente sem custo —, além de direitos preferenciais para comprar 20% da produção pelo custo de produção.
Em suma, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos está confiscando o petróleo de um país que invadiu há oito meses, não como mero intermediário ou financiador, mas como proprietário.
Esta é a demonstração mais clara até o momento de que a incipiente terceira guerra mundial que se desenrola atualmente é uma guerra de conquista colonial e repartição. O petróleo está sendo confiscado para abastecer as guerras de Washington contra o Irã e a Rússia, bem como os preparativos de guerra contra a China.
A medida também é indissociável da guerra comercial contra o Canadá, da mudança de nome do Golfo do México e do Lago Ontário, e da Estratégia de Segurança Nacional de Trump, que afirma o domínio americano sobre todo o hemisfério. As Américas estão sendo transformadas pelo imperialismo norte-americano em uma fonte de recursos e um palco para a guerra global.
Duas coisas ficam expostas. A primeira é o gangsterismo da classe dominante dos EUA, que abandonou sua antiga pretensão de defender o direito internacional, os direitos humanos e a democracia. A segunda é a venalidade e a covardia da burguesia latino-americana e de seus apologistas pequeno-burgueses — sobretudo o movimento chavista, aclamado por duas décadas pelas tendências pablistas, stalinistas e acadêmicas como um novo caminho para o socialismo. Agora, ele preside a entrega da riqueza nacional da Venezuela ao Pentágono.
Os termos da apreensão
O acordo foi negociado em segredo pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e por Delcy Rodríguez, que assumiu o cargo depois que as forças especiais dos EUA sequestraram o presidente Nicolás Maduro em 3 de janeiro. O acordo foi fechado por meio de uma ligação telefônica. Não houve votação. Os executivos da empresa estatal de petróleo da Venezuela (PDVSA), sem falar da classe trabalhadora, tomaram conhecimento da transferência pela imprensa.
A decisão constitui uma grave violação da Constituição venezuelana de 1999, que estabelece os depósitos de hidrocarbonetos como propriedade inalienável da República e proíbe a cessão ou o arrendamento do território nacional a potências estrangeiras.
Rafael Ramírez, ex-presidente da PDVSA e ministro do Petróleo de Hugo Chávez, calcula que os US$ 209 bilhões que Rodríguez promete em receita tributária com o acordo correspondem a uma alíquota de royalties de 3,7% — inferior àquela que a Venezuela arrecadava sob a ditadura de Juan Vicente Gómez, apoiada pelos EUA, há um século. Ele observa que mais de US$ 15 bilhões, provenientes de 222,7 milhões de barris já vendidos desde janeiro, estão depositados em uma conta do Tesouro dos EUA.
O parceiro do Pentágono, Betancourt, está sendo investigado na Espanha e na Suíça por lavagem de dinheiro desviado da PDVSA. De acordo com o *Washington Post*, autoridades do governo Trump intervieram junto ao Ministério Público suíço para suspender o mandado de extradição e as restrições de viagem contra ele. Membro da “boliburguesía”, que enriqueceu por meio de conexões com o governo chavista, Betancourt teve suas dificuldades legais resolvidas como contrapartida por atuar como testa-de-ferro do Pentágono.
O momento em que o acordo foi fechado atende a um objetivo político imediato. Dois meses antes das eleições de meio de mandato nos EUA, com a guerra contra o Irã se arrastando e alimentando a inflação, Trump está tentando vender o acordo como uma vitória. É preciso ressaltar, no entanto: nada disso vai reduzir os preços da gasolina. A Venezuela produz 1,25 milhão de barris por dia — volume comparável ao da Dakota do Norte — e seus portos não têm capacidade para receber mais do que isso.
A pilhagem do petróleo venezuelano pelo Pentágono deve pôr fim a qualquer discurso que apresente os Estados Unidos como líderes do “mundo livre”. O que existe é uma oligarquia que opera com métodos da máfia — atuando por meio de lavadores de dinheiro e indiciados por tráfico de drogas, sempre que estes facilitam a pilhagem, e retirando as acusações contra eles como forma de pagamento. E esse é o modelo pretendido para todo o hemisfério, do Canadá à Terra do Fogo, com o capital russo, chinês e, quando vantajoso, europeu, excluído à força.
As implicações dentro dos Estados Unidos não são menos perigosas. As forças armadas estão constitucionalmente subordinadas à autoridade civil e dependem das dotações do Congresso. Um Pentágono que acumula participações acionárias e ativos geradores de receita no exterior adquire seus próprios interesses econômicos diretos e um grau de autonomia institucional que a estrutura constitucional foi expressamente concebida para impedir. Guerras de pilhagem estão sendo financiadas e dirigidas fora do alcance de quaisquer formas democráticas que ainda sobrevivam em Washington.
Por meio de todas as suas manobras, a família mafiosa de Trump busca manter uma parcela para si mesma, sem auditoria nem divulgação. O que está surgindo é um aparato estatal militar-financeiro que combina coerção armada, autoridade sobre investimentos e propriedade direta de ativos estrangeiros — a base material de uma ditadura que, em última instância, tem como alvo a classe trabalhadora americana.
O resultado de um século de pilhagem
Colocado em seu contexto histórico, o confisco do petróleo venezuelano pelos EUA é o ato mais abertamente colonial imposto ao país desde que conquistou a independência da Espanha, há dois séculos. Nem mesmo as ditaduras que entregaram os campos de petróleo à Standard Oil cederam a propriedade formal a um Estado estrangeiro.
O imperialismo dos EUA voltou sua atenção para a Venezuela em dezembro de 1902, quando a Inglaterra, a Alemanha e a Itália enviaram navios de guerra para cobrar dívidas devidas aos seus detentores de títulos. Quando o presidente Cipriano Castro se recusou a pagar, eles bloquearam a costa, afundaram canhoneiras venezuelanas, bombardearam Puerto Cabello e desembarcaram tropas. O presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, mediou um acordo, dizendo inicialmente às potências europeias que elas poderiam cobrar as dívidas, desde que não confiscassem nenhum território.
Roosevelt, então, codificou a hegemonia dos EUA no corolário de 1904 à Doutrina Monroe: os Estados Unidos exerceriam o “poder policial internacional” em todo o hemisfério, de modo que as potências europeias não tivessem pretexto para intervir.
Em 1908, com navios de guerra dos EUA na costa, Juan Vicente Gómez tomou o poder enquanto Castro estava no exterior. Imediatamente reconhecido por Washington, Gómez governou por meio de tortura, grupos de prisioneiros acorrentados e pelotões de fuzilamento até sua morte em 1935, entregando os campos de Maracaibo à Standard Oil e à Shell. A Venezuela tornou-se a maior exportadora de petróleo do mundo, e o ditador, seu homem mais rico.
Todas as tentativas nacionalistas de superar esse quadro fracassaram. Rómulo Gallegos, o primeiro presidente eleito livremente do país, promulgou o imposto 50-50 e foi derrubado pelos militares em poucos meses. Marcos Pérez Jiménez, que consolidou o poder após o golpe, administrou campos de concentração e um aparato de polícia secreta por seis anos e recebeu a Legião de Mérito do presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower. Uma nacionalização parcial em 1976 indenizou as empresas petrolíferas em cerca de US$ 1 bilhão e não alterou nada estruturalmente: os mesmos campos continuaram sendo explorados, os mesmos gestores vendiam, em sua grande maioria, para o mesmo comprador.
Quando os preços do petróleo despencaram na década de 1980, a dívida venceu, e Carlos Andrés Pérez — eleito em 1988 com a promessa de resistir ao FMI — anunciou, em fevereiro de 1989, um pacote de ajustes estruturais que dobrou os preços dos combustíveis da noite para o dia. A resposta foi o Caracazo: uma revolta espontânea da classe trabalhadora urbana que começou com aumentos nas tarifas de transporte e se espalhou por Caracas e uma dúzia de cidades. Pérez suspendeu as garantias constitucionais e enviou o exército aos bairros da classe trabalhadora.
Essa luta foi uma experiência decisiva da classe trabalhadora venezuelana no século XX. Mas, na falta de uma expressão política independente, a indignação social acabou sendo capturada por um setor dos oficiais liderado por Hugo Chávez. Após um golpe fracassado em 1992, ele foi eleito em 1998, conseguindo canalizar a agitação para os marcos do Estado burguês.
O que o chavismo realmente foi
O que foi apresentado por duas décadas como “Socialismo do Século XXI” foi, desde suas origens, o desvio de uma onda revolucionária para o reformismo nacional financiado pela renda do petróleo.
A análise de Leon Trotsky sobre as nacionalizações de Lázaro Cárdenas no México oferece a explicação mais clara desse fenômeno. Um governo burguês nacional em um país semicolonial, escreveu ele, “oscila entre o capital estrangeiro e o nacional”, governando ou como instrumento do capital estrangeiro ou manobrando com o proletariado para ganhar espaço limitado contra ele. Trotsky foi explícito ao afirmar que seria “um verdadeiro engano” alegar que o caminho para o socialismo passa pela nacionalização por parte de um Estado burguês.
Sob o governo de Chávez, a participação do setor privado no PIB chegou a 70% — um nível superior ao de 1998. A participação dos empregadores na riqueza nacional, em contraposição à dos trabalhadores, atingiu um recorde de 48,8% em 2008, enquanto os salários reais caíam. Em 2012, a Venezuela contava com os bancos mais lucrativos do mundo e o mercado de ações com melhor desempenho. As “misiones”, que ampliavam a assistência social e os serviços, eram reais e reduziram temporariamente a pobreza. Mas nada alterou a dependência do país de uma única commodity e, por meio dela, do capital financeiro imperialista.
Quando os preços desabaram e Obama declarou a Venezuela uma ameaça à segurança nacional, todo o edifício desmoronou. O chavismo e seus defensores haviam reprimido sistematicamente a única força capaz de se opor à agressão imperialista — a luta independente da classe trabalhadora —, e seu próprio “anti-imperialismo” foi desmascarado como retórica vazia.
Em 2024, a própria Rodríguez denunciou a oposição apoiada pelos EUA por querer entregar o petróleo, o gás e o ouro da Venezuela aos seus “senhores” em Washington. Em setembro de 2025, ela declarou ao New York Times que o Pentágono sempre teve o objetivo estratégico de obter as reservas venezuelanas. Ela sabia exatamente o que estava por vir. Agora, ela ajuda a administrar isso.
Após uma entrevista recente com Rodríguez, a revista TIME descreveu o resultado como um Estado cliente: Rubio supervisiona a administração das receitas do petróleo e das finanças públicas; as receitas de exportação são mantidas em conta de garantia e liberadas à medida que Caracas cumpre as condições; Rodríguez consulta Rubio sobre a nomeação de seu ministro da Defesa; e há contato quase diário por telefone e WhatsApp.
A completa capitulação ficou evidente quando Nicolás Maduro Guerra — deputado da Assembleia Nacional, filho do presidente sequestrado e ele próprio citado na acusação de narcotráfico — divulgou um comunicado formal em papel timbrado oficial da Venezuela agradecendo a Trump e Rubio, citando-os nominalmente, por seu papel no acordo, mesmo com seu pai detido em uma prisão de Nova York.
O veredicto vai além da Venezuela. O castrismo em Cuba, os sandinistas na Nicarágua e todos os movimentos nacionalistas burgueses do século passado se mostraram incapazes de se opor ao imperialismo. Em caso após caso, a tentativa de retratar esses regimes como “socialismo” serviu apenas para desarmar politicamente a classe trabalhadora.
O retorno ao colonialismo
O Comitê Internacional da Quarta Internacional tem sido o único a analisar esses processos à medida que se desenvolviam. Em agosto de 1990, às vésperas da Primeira Guerra do Golfo, David North afirmou em um congresso da Workers League que o mundo havia entrado em uma nova divisão imperialista do globo: o fim da era do pós-guerra significava o fim da era pós-colonial, e as ex-colônias que haviam conquistado um certo grau de independência seriam agora subjugadas novamente.
Toda uma camada de regimes nacionalistas burgueses na Ásia, África, Oriente Médio e América Latina havia obtido sua margem de manobra principalmente graças à existência da União Soviética. O apoio da burocracia stalinista a esses movimentos nunca foi anti-imperialista em nenhum sentido de princípio. Era um meio de aliviar a pressão sobre a URSS e vinha acompanhado da repressão sistemática à revolução socialista. Mas, por mais cínico que fosse, isso proporcionou a esses governos um certo apoio diplomático, militar e econômico. Eles podiam se equilibrar entre os blocos, obter concessões, nacionalizar uma indústria, ameaçar se voltar para o Oriente.
Quando a burocracia stalinista dissolveu a União Soviética em 1991, essa base desapareceu e, com ela, toda restrição à violência imperialista direta contra os antigos países coloniais. O que se seguiu foi a destruição sistemática de toda a independência e soberania que eles haviam conquistado.
Três décadas e meia de guerra contínua — Iraque, Iugoslávia, Somália, Afeganistão, Líbia, Síria, Sudão, Palestina e, agora, Irã e Venezuela — constituem uma única campanha prolongada para eliminar, país por país, todos os obstáculos que os movimentos anticoloniais do século XX haviam erguido contra o domínio imperialista irrestrito. O objetivo do imperialismo é refazer o mundo como se a Revolução de Outubro de 1917 e as revoltas anticoloniais nunca tivessem ocorrido.
É na Venezuela que esse processo encontra sua expressão mais crua. O Pentágono agora detém a propriedade do petróleo bruto venezuelano; as compras chinesas foram reduzidas a zero e as joint ventures russas foram encerradas.
Ramírez, ex-presidente da empresa estatal de petróleo, alertou que o acordo está construído sobre areia e que os venezuelanos não o aceitarão. A pilhagem se baseia na austeridade social e na pobreza em massa, e está sendo imposta a uma população que acaba de enterrar mais de 6.500 pessoas e enfrenta uma devastação total. E Washington esgotou todos os instrumentos políticos para conter a raiva que está gerando: a oposição de direita continua sendo odiada e os chavistas estão administrando abertamente a pilhagem e são incapazes de se apresentar como algo além de fantoches de Washington. O que resta é a força bruta por meio da Guarda Nacional Bolivariana e dos fuzileiros navais dos EUA.
As perspectivas políticas desenvolvidas pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional foram totalmente confirmadas por esses acontecimentos, em um momento em que a classe trabalhadora representa uma força social muito maior do que em qualquer outro momento da história. Sua unificação consciente na Venezuela, nos Estados Unidos e nas Américas, sob o programa do CIQI de revolução socialista mundial, é a única resposta à recolonização e à guerra mundial.
