Em 14 de fevereiro de 2025, às 19h01, o presidente fascista da Argentina, Javier Milei, usou sua conta no X para promover a $LIBRA, uma criptomoeda lançada 23 minutos antes. O lançamento atraiu investimentos massivos, elevando rapidamente sua capitalização de mercado para cerca de US$ 4,5 bilhões. Somente três horas depois, o ativo perdeu 89% do valor. 50 mil compradores perderam coletivamente cerca de US$ 251 milhões, enquanto as nove carteiras fundadoras arrecadaram US$ 87 milhões. Cinco horas depois do tuíte, o presidente apagou a publicação.
Para se defender do episódio, Milei declarou em entrevista que havia divulgado a criptomoeda “como cidadão, tuitando por meio de sua conta pessoal, e não como presidente”. O esforço era evidente: apresentar o caso como o desvio isolado de um neófito político aventureiro.
Passados dezoito meses, o próprio governo desmentiu essa versão. Em declarações oficiais, admitiu ter desviado mais de 1 trilhão de pesos de um fundo público criado para financiar obras rodoviárias — o SisVial — para aplicações financeiras: exatamente o que a $LIBRA fizera em segredo. Longe de ser uma aberração, o escândalo cripto foi a primeira rachadura pela qual se tornou visível o modo de funcionamento gritantemente criminoso de todo o governo.
O desvio do Sistema Vial Integrado (SisVial)
Em 9 de agosto de 2026, escrevendo para o La Nación, Hugo Alconada Mon informou que “durante dois anos e meio, o governo de Javier Milei arrecadou mais de 1,5 trilhão de pesos no fundo fiduciário criado para financiar obras rodoviárias, mas destinou apenas um quarto desse montante a esse fim. No final de maio passado, mantinha mais de 1 trilhão de pesos em investimentos financeiros, como depósitos a prazo fixo e títulos públicos” (tradução nossa, assim como todas as demais do espanhol e do inglês).
O SisVial é um fideicomisso que capta parte do imposto sobre combustíveis, com destinação legal exclusiva: construção e manutenção de estradas. Foi criado em 2001 por exigência do Banco Mundial, precisamente para impedir que essa arrecadação fosse desviada para outros fins. É exatamente essa blindagem, desenhada pelo próprio capital financeiro internacional, que o governo Milei usa agora como veículo do desvio.
Os números, reconstruídos pelo La Nación a partir de balanços contábeis e documentos oficiais, confirmam e detalham essa distorção: dos $1,5 trilhão arrecadados em dois anos e meio, apenas a quarta parte foi aplicada em obras — uma taxa de subexecução de 73,8%. Um ex-diretor do banco BICE descreveu a lógica como própria de uma “mesa de dinero” (mesa de operações): obra pública parada, recursos orientados à especulação.
Por outro lado, entre 65% e 70% das rodovias nacionais argentinas estão em estado regular ou ruim, e as obras públicas estão praticamente paralisadas há dois anos e meio. O governador de Santa Fe descreveu as estradas de sua província como “já não tendo buracos, mas sim crateras”. Não é falta de dinheiro: é decisão sobre onde pôr o dinheiro — para cada peso gasto em asfalto, 77 pesos foram parar em aplicações financeiras. “Atrás dos números há gente que morre nas estradas”, resumiu um economista consultado pelo La Nación.
Diante disso, a confissão do atual porta-voz argentino Adrián Ravier é a formulação mais pura da política do governo. Questionado sobre o destino do dinheiro, admitiu que “uma parte desses impostos vai para Vialidad (a autarquia nacional de estradas) e a outra parte é administrada pelo Ministério da Economia como parte dos esforços para alcançar o equilíbrio fiscal”. Perguntado quanto ia para a manutenção das estradas, recusou-se a responder: “o que não posso dizer agora é quanto do que é arrecadado está sendo destinado à manutenção das rodovias”.
Ravier assumiu o posto em junho de 2026, substituindo Manuel Adorni — que acumulava a função com a de chefe de gabinete de Milei e renunciou a ambos os cargos naquele mês, em decorrência de seu envolvimento no escândalo do criptoativo $LIBRA.
Se no SisVial a pilhagem passou pelo aparato ordinário do Estado, na $LIBRA ela correu pelo canal pessoal do presidente e de sua rede familiar. Ainda assim, trata-se da versão concentrada, personalizada e internacionalizada da mesma operação: extrair valor sem produzir nada, usando o Estado como veículo — só que aqui a vítima não é quem morre nas estradas por falta de manutenção, mas quem perdeu as economias comprando um criptoativo endossado pelo próprio presidente.
A fraude foi arquitetada por duas empresas: a KIP Network Inc., sediada no Panamá, que assinava o site institucional do projeto, e a Kelsier Ventures, dirigida pelo americano Hayden Davis, que fornecia a capacidade financeira. A conexão entre ambas foi feita pelo operador argentino Mauricio Novelli — que conhecia Milei há anos e, segundo investigação do La Nación, pagava ao então deputado um salário mensal como “influenciador” desde 2021. Foi Novelli quem intermediou tanto a reunião de outubro de 2024 entre Milei e Julian Peh, da KIP, quanto o encontro de 30 de janeiro de 2025 entre Milei e Davis na Casa Rosada — fora da agenda oficial, viabilizado por Karina Milei, irmã do presidente e secretária-geral da Presidência.
O modelo não nasceu na Argentina. Um mês antes, na véspera da posse de Trump, o mesmo grupo já havia lançado a memecoin $MELANIA seguindo o roteiro que repetiria com a $LIBRA: endosso de uma figura política, aquisição de mais de 90% do suprimento por carteiras internas antes do público, valorização artificial e despejo coordenado. A ação coletiva Hurlock v. Kelsier Labs, protocolada por compradores lesados no Tribunal Distrital do Distrito Sul de Nova York, identifica ao menos 15 memecoins manipuladas pela mesma infraestrutura.
A renúncia de Manuel Adorni conecta os dois casos. Perícia no celular de Novelli revelou ligações entre o operador, Karina Milei e o assessor Santiago Caputo, além de um acordo de US$ 5 milhões pela promoção presidencial da criptomoeda. A investigação sobre enriquecimento ilícito de Adorni — que retificou sua declaração patrimonial alegando US$ 513.000 em bitcoins “esquecidos em um pendrive” — seguiu o rastro do dinheiro das vítimas até carteiras digitais não declaradas controladas por ele e pela esposa. A queda de Adorni não mudou nada estruturalmente; confirmou que o escândalo cripto não era periférico, mas tocava o centro do governo.
O “milagre” econômico de Milei: pilhagem disfarçada de crescimento
A propaganda do “milagre” econômico argentino sob Milei não resiste ao exame dos próprios números oficiais. Os dados do PIB argentino do segundo trimestre de 2026 foram recentemente divulgados e apontam para uma contração de 0,6%, em relação aos três primeiros meses do ano. O mais grave é que o avanço havia sido de apenas 0,7%, no primeiro trimestre.
A queda foi generalizada nos componentes da demanda interna: o consumo privado despencou 2,4% frente ao trimestre anterior, o consumo público recuou 2,3% e a formação bruta de capital fixo — a medida do investimento — caiu 0,8%. Apenas as exportações cresceram (2,5%), enquanto as importações diminuíram 3,5%, amortecendo artificialmente a retração do PIB.
A composição desse crescimento residual é mais reveladora do que sua magnitude. Na comparação interanual, a mineração cresceu 16,4% e a agropecuária 6,9% — setores intensivos em capital, voltados à exportação de commodities. Já a indústria manufatureira caiu 2,1%, a construção avançou apenas 0,2% e o comércio ficou estagnado. As atividades não primárias, que representam cerca de 85% do PIB, seguem deprimidas.
Contudo, o dado mais dramático é o do investimento. A formação bruta de capital fixo despencou 11,1% na comparação interanual, a quinta queda trimestral consecutiva. Ela está 3% abaixo do nível do quarto trimestre de 2023 e 14% abaixo do terceiro trimestre daquele ano, em patamares similares aos do fim oficial da pandemia de COVID-19. Como forçosamente admitiu o economista Lorenzo Sigaut Gravina, da consultora Equilibra, é paradoxal que em uma gestão pró-mercado e marcada pela desregulamentação, o que mais diminua seja o investimento.
O mesmo padrão de ilusão estatística aparece nas contas fiscais. O “déficit zero” celebrado pelos mercados resulta de cortes no orçamento social e mecanismos flagrantemente criminosos, como o desvio dos recursos destinados às estradas para especulação financeira.
O crescente desemprego e a informalidade e o endividamento de subsistência familiar são a face social desse “milagre”. O desemprego subiu de 7,5% para 7,9% no primeiro semestre de 2026, o maior índice desde 2021. A informalidade também subiu significativamente, para 45%. Enquanto as tarifas de metrô aumentaram em 2.000% e os serviços básicos em 850%, os salários foram reajustados em média em 300%.
Uma em cada três famílias argentinas — mais de 20 milhões de pessoas — possui dívidas ativas; 6 milhões estão em mora e 3,5 milhões têm dívidas classificadas como irrecuperáveis. A natureza do endividamento é escancarada pelo fato de aproximadamente 90% do atraso nos cartões de crédito ser originado por compras em supermercados e alimentação.
A prioridade à repressão e a crise do próprio Estado
Em 31 de agosto de 2026, o governo publicou no Boletín Oficial um pacote de reajustes salariais para as Forças Armadas e as forças de segurança federais, com recomposição acumulada de cerca de 32% ao longo do ano para os militares, e aumentos de 10% a 35% para as forças de segurança, conforme a função.
Os decretos alcançam também os empregados públicos civis — e é precisamente essa extensão que revela a profundidade da crise: o governo é forçado a recompor os salários do próprio aparato estatal porque a deterioração que ele mesmo produziu está corroendo o Estado por dentro. Os militares acumulavam perda de 28% em relação à inflação desde 2023, e em junho o Ministério da Defesa teve de flexibilizar a dedicação exclusiva, permitindo que militares e agentes federais buscassem empregos no setor privado. Um cabo do Exército recebia US$ 566 de salário básico — menos da metade do que uma família típica precisava para não cair na pobreza.
A prioridade, porém, é inequívoca. O governo que “não tem dinheiro” para estradas, saúde e educação — e que desvia as verbas carimbadas dessas áreas para a especulação financeira — encontra dezenas de bilhões de pesos mensais para recompor o aparato repressivo e militar. Entre os beneficiários estão os efetivos destacados para o Programa F-16 Peace Condor, que inclui intercâmbios com as Forças Aéreas Sul (AFSOUTH), um componente do Comando Sul dos EUA.
Este é o desenvolvimento lógico do caráter de classe do Estado burguês: sua fascistização é a forma exigida para impor ataques capitalistas crescentes à classe trabalhadora e reprimir a resposta social que provocam. O alinhamento de Milei aos preparativos de guerra do imperialismo americano contra a China completa o quadro.
A mesma pilhagem, em escala continental
O mesmo padrão de pilhagem que a Argentina de Milei ilustra em detalhe se repete, em escala continental, sob orquestração de Washington. O governo Trump apresenta sua coalizão de governos fascistoides na América Latina – o chamado “Escudo das Américas”, que o World Socialist Web Site (WSWS) caracterizou como uma Operação Condor 2.0 – como um “combate ao narcoterrorismo”. Mas o próprio aparato político que sustenta essa ofensiva imperialista no continente está completamente mergulhado em escândalos criminosos.
O WSWS documentou como esse aparato atua, por meio do operador argentino Fernando Cerimedo, que dirigiu operações para instalar ou sustentar governos de extrema-direita em diversos países da região, incluindo a Argentina. Preso na Bolívia em agosto sob acusação de encomendar a tentativa malograda de assassinato de sua ex-parceira, Cerimedo responde ainda a investigações por enriquecimento ilícito e por proteção a voos ligados ao narcotráfico — o mesmo crime que serve de pretexto para a violência imperialista de Washington.
A conexão com a $LIBRA não é lateral: foi a esposa de Cerimedo quem vazou as gravações que expuseram um esquema de propina dirigido por Karina Milei, a mesma irmã do presidente que articulou o encontro entre Milei e os operadores da criptomoeda. O enriquecimento pessoal pelo acesso ao Estado, que a $LIBRA revelou em escala nacional, replica-se como método de operação de toda a rede que sustenta o poder de Milei e de seus pares regionais – que miram-se na criminalidade escancarada do próprio governo Trump.
Essa podridão não é acidente nem exceção: é a forma que a dominação imperialista assume quando o capitalismo, em crise terminal, já não tem nada a oferecer além de pilhagem, repressão e barbárie.
O reforço do aparato militar e a instalação de vigaristas de extrema-direita alinhados a Trump destinam-se a impor os ataques da elite dominante aos direitos trabalhistas e sociais da classe trabalhadora.
Em fevereiro, a burocracia sindical argentina foi obrigada a convocar uma greve geral contra a contrarreforma trabalhista de Milei, mas decretou uma paralisação com os trabalhadores em casa, sem mobilização. Mesmo assim, os trabalhadores tomaram as ruas de Buenos Aires e de outras cidades, para serem recebidos com gás, balas de borracha e prisões em massa. Os aposentados marcham sobre o Congresso toda quarta-feira há mais de dois anos, ao custo de centenas de feridos — entre eles o fotógrafo Pablo Grillo, cujo crânio foi fraturado por um cartucho de gás lacrimogêneo da polícia.
O fundo rodoviário, a agência para pessoas com deficiência e a $LIBRA não são meramente os escândalos de uma administração corrupta, a serem resolvidos nos tribunais ou pela oposição peronista, cujas traições abriram o caminho de Milei ao poder. São a forma como o domínio capitalista funciona hoje em escala internacional.
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